Sentir dor ao pentear o cabelo não é normal; saiba o que pode estar por trás

Manifestação aparentemente simples pode funcionar como um alerta precoce para diferentes condições de saúde

Pentear os cabelos, prender um coque ou simplesmente encostar a cabeça no travesseiro deveria ser algo banal. Para algumas pessoas, porém, esses gestos cotidianos vêm acompanhados de dor, ardência ou uma sensação incômoda de sensibilidade no couro cabeludo. Embora muita gente atribua o desconforto ao estresse, ao uso de produtos capilares ou até ao cansaço, especialistas alertam que o sintoma pode estar relacionado a diferentes condições de saúde e não deve ser ignorado.

Conhecida como tricodinia, ou alodinia do couro cabeludo, a condição se manifesta por meio de dor, queimação, sensibilidade ao toque e até pela sensação de que os próprios fios estão doloridos. O problema não é considerado uma doença em si, mas um sinal de que algo pode estar acontecendo no organismo.

“Caracterizada por dor, ardência, sensibilidade, queimação ou sensação de ‘cabelos doloridos’, a condição merece investigação porque pode ser um dos primeiros sinais de doenças do couro cabeludo, de alguns tipos de queda capilar e até de enxaqueca. A tricodinia não é uma doença em si, mas um sintoma. Ela indica que existe alguma alteração acontecendo e, por isso, deve ser valorizada. Muitas pessoas convivem com esse desconforto por meses antes de procurar atendimento, acreditando que seja algo normal”, explica a Lilian Brasileiro, médica e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica.

A relação entre a sensibilidade no couro cabeludo e a enxaqueca é uma das associações mais conhecidas pelos especialistas. Nesses casos, o desconforto ocorre porque o sistema nervoso passa a interpretar estímulos comuns como dolorosos.

“A alodinia no couro cabeludo reflete uma alteração na forma como o sistema nervoso processa estímulos sensoriais. É basicamente uma predisposição genética e pode indicar que a paciente tem enxaqueca. Os genes da enxaqueca estão entrelaçados neste sintoma”, esclarece Tiago de Paula, médico neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP) e membro da International Headache Society (IHS).

Segundo o neurologista, a hipersensibilidade pode ser tão intensa que atividades simples passam a causar incômodo. “O couro cabeludo fica tão sensível que até encostar na cabeça pode provocar dor. É um sintoma muito característico da enxaqueca e faz parte da própria doença. A paciente muitas vezes não consegue ir ao cabeleireiro”, diz.

Embora a dor seja frequentemente associada a problemas neurológicos, ela também pode ser um alerta para alterações dermatológicas. Algumas doenças inflamatórias do couro cabeludo, por exemplo, podem provocar o sintoma antes mesmo de sinais mais evidentes aparecerem.

Entre elas estão as alopecias cicatriciais, grupo de enfermidades que provocam destruição permanente dos folículos pilosos. Nesses quadros, identificar o problema precocemente pode ser determinante para preservar os fios.

“Em muitos pacientes, a dor, a ardência ou a sensação de queimação aparecem antes mesmo da perda evidente dos fios. Reconhecer esse sintoma precocemente pode fazer diferença, porque algumas alopecias cicatriciais evoluem rapidamente e o tratamento precoce aumenta as chances de preservar os folículos ainda viáveis”, esclarece a Dra. Lilian.

Outra situação frequentemente observada nos consultórios é a associação entre tricodinia e eflúvio telógeno, condição caracterizada por uma queda capilar difusa desencadeada por fatores como infecções, alterações hormonais, cirurgias, deficiência nutricional ou períodos de estresse intenso.

“Nem todo paciente com eflúvio apresenta tricodinia, mas essa associação é relativamente comum. Muitas pessoas procuram atendimento justamente pela dor e só então percebem que também estão perdendo mais cabelos do que o habitual”, afirma.

Processos inflamatórios, como dermatite seborreica, psoríase e alguns tipos de foliculite, também entram na lista de possíveis causas. Nesses casos, a inflamação sensibiliza as terminações nervosas da região, aumentando a percepção dolorosa.

“Quando existe inflamação da pele, há liberação de mediadores inflamatórios e sensibilização das terminações nervosas locais, tornando o couro cabeludo mais doloroso ao toque”, destaca.

Além das questões médicas, hábitos do dia a dia podem agravar o quadro. Penteados muito apertados, tranças, rabos de cavalo tensionados, coques frequentes e extensões mal instaladas exercem tração contínua sobre os fios e o couro cabeludo, favorecendo tanto o desconforto quanto, em alguns casos, a chamada alopecia por tração.

“Penteados muito apertados, tranças, rabos de cavalo, coques frequentes, megahair mal instalado e qualquer situação que gere tração contínua podem aumentar a sensibilidade e, quando mantidos por muito tempo, favorecer inclusive a alopecia por tração”, comenta a Dra. Lilian.

Os especialistas destacam que a investigação deve ir além do couro cabeludo. Quando a dor surge repetidamente diante de estímulos leves ou é acompanhada por crises de dor de cabeça, náusea, sensibilidade à luz ou aos sons, uma avaliação neurológica pode ser necessária.

“O principal sinal de alerta é quando essa sensibilidade passa a fazer parte da rotina e começa a limitar atividades simples do dia a dia. Se prender o cabelo, usar uma tiara, um boné ou até pentear os cabelos provoca dor frequentemente, especialmente quando isso ocorre junto com crises de dor de cabeça, náuseas, sensibilidade à luz ou aos sons, vale a pena procurar avaliação com um neurologista. Quanto mais cedo a enxaqueca é diagnosticada e tratada, maiores são as chances de controlar a doença e reduzir essa hipersensibilidade”, acrescenta o Dr. Tiago.

Para o especialista, o tratamento deve focar na causa do problema e não apenas na tentativa de evitar situações que desencadeiam o desconforto:

“Infelizmente, no caso da enxaqueca, muitos pacientes recebem a orientação de apenas evitar gatilhos. Essa é uma das piores recomendações. O foco deve ser controlar a doença. O objetivo do tratamento é fazer com que a pessoa possa prender o cabelo, ir ao cabeleireiro ou usar um capacete sem sofrer por causa. 

“Já acompanhei pacientes que não suportavam nem passar a mão na cabeça. Depois de um período de tratamento, essa sensibilidade diminuiu significativamente. Isso mostra que estamos tratando a causa do problema, e não apenas tentando fugir dos gatilhos”, completa.

O diagnóstico da tricodinia exige uma avaliação individualizada, já que não existe uma única explicação para o sintoma. O primeiro passo é identificar se há uma doença dermatológica, um processo inflamatório, uma alopecia em desenvolvimento ou uma condição neurológica associada.

“O primeiro passo é identificar se existe uma doença dermatológica ativa, um processo inflamatório, uma alopecia em desenvolvimento ou outro fator desencadeante. O tratamento sempre depende da causa. Não existe um único tratamento para a tricodinia”, pontua a Dra. Lilian.

Por isso, a automedicação e a tentativa de resolver o problema apenas com cosméticos podem atrasar o diagnóstico correto.

“Shampoos e tônicos podem até reduzir temporariamente o desconforto em algumas situações, mas não tratam doenças como alopecia cicatricial, outras condições inflamatórias ou a enxaqueca. Quanto mais cedo identificarmos a causa, maiores são as chances de controlar o processo e evitar perda permanente dos cabelos, quando ela existe”, detalha.

A recomendação é procurar um especialista sempre que a dor persistir por vários dias ou vier acompanhada de queda acentuada dos fios, vermelhidão, descamação, coceira intensa ou falhas no couro cabeludo.

“O couro cabeludo não deve doer de forma persistente. Quando esse sintoma aparece sem uma explicação evidente, ele merece investigação. Muitas vezes, a dor é justamente o primeiro sinal de que algo precisa ser tratado”, finaliza.

O Globo

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