
Portal da Transparência vincula R$ 27 mil em benefícios a Sophia Barclay, que afirma não receber os valores atualmente e atribui registros recentes ao CadÚnico de parentes
Sophia Barclay, candidata a deputada federal por São Paulo pelo PL e crítica de programas de assistência social do governo federal, aparece no Portal da Transparência como beneficiária de programas como Bolsa Família, Auxílio Emergencial, Auxílio Brasil e Gás do Povo. Os registros vinculados a seu nome remontam a maio de 2018 e totalizam R$ 27.024,23.
As informações foram publicadas pelo UOL nesta quarta-feira (19). Segundo o levantamento do portal, há uma divergência entre os dados oficiais e o relato da candidata: enquanto Barclay afirma ter começado a receber ajuda em 2019 e diz não receber mais benefícios, o Portal da Transparência registra valores associados ao seu nome também em períodos posteriores.
De acordo com os dados consultados pelo UOL, o primeiro pagamento de Bolsa Família vinculado à candidata ocorreu em maio de 2018, quando ela vivia no Rio de Janeiro. Entre os registros mais recentes estão R$ 600 referentes ao Bolsa Família de junho deste ano e R$ 100,23 do Gás do Povo.
A exposição dos dados ganhou relevância por causa das declarações que Barclay publica nas redes sociais contra beneficiários de programas de transferência de renda. Em uma postagem, ela comparou o apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) motivado pelo Bolsa Família a “aceitar apanhar do marido só porque ele paga as contas”. Em outras publicações, afirmou que beneficiários teriam “vida mansa”.
Ao UOL, porém, Barclay disse que sua própria entrada em programas assistenciais ocorreu depois de ter sido expulsa de casa e ficar sem suporte familiar.
“Fui expulsa de casa porque sou uma pessoa trans, essa é a realidade de muitas pessoas trans e travestis no Brasil, de não ter o amparo da família, nem uma oportunidade de emprego”, afirmou.
Ela acrescentou:
“Fui morar de favor na casa de algumas pessoas e eu precisava de ajuda financeira”.
Barclay afirma que começou a receber auxílio em 2019. A versão apresenta diferença em relação aos dados levantados no Portal da Transparência, que apontam registro do Bolsa Família em seu nome já em maio de 2018.
Segundo a candidata, sua situação financeira mudou a partir de 2020, quando passou a obter renda com atividades nas redes sociais.
“Depois da pandemia, consegui me reerguer, abrir minha empresa e trabalhar como influenciadora digital. E comecei a fazer minha renda através das redes sociais”, declarou.
Na sequência, sustentou:
“Desde então, não recebi mais auxílio emergencial”.
Candidata confirma registro recente, mas contesta recebimento
Questionada sobre os dados posteriores disponíveis no Portal da Transparência, Barclay reconheceu que seu nome continua aparecendo nos registros, mas afirmou que isso não significaria que o dinheiro tenha sido destinado diretamente a ela.
“Lá, de fato, consta que eu recebi até o mês passado”, disse.
A candidata atribuiu a situação ao fato de ter permanecido vinculada ao Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal, o CadÚnico, de pessoas com quem havia morado.
“Entrei em contato com as pessoas que eu morei e eles viram que eu estava constando no cadastro deles. Eles estavam recebendo o Bolsa Família, porém, constava como se eu estivesse recebendo porque eu estava cadastrada junto no CadÚnico deles”, afirmou.
Barclay disse que fazia parte do mesmo núcleo familiar registrado no sistema.
“Eu morava com essas pessoas, que são parentes meus, após eu ter sido expulsa de casa eles me incluíram no CadÚnico deles e começaram a receber o Bolsa Família. Automaticamente, todas as pessoas vinculadas ao CadÚnico do chefe da família vão aparecer lá no Portal da Transparência.”
A candidata também disse acreditar que os parentes não sabiam que ela continuava associada ao cadastro e atribuiu a manutenção do vínculo aos órgãos responsáveis pelo controle dos benefícios.
“Acredito que tenha sido um erro dos órgãos responsáveis por isso de não ter investigado e cortado as pessoas que já não precisam mais”, afirmou.
O UOL informou ter procurado o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome para questionar os registros relacionados à candidata e, até a publicação da reportagem, aguardava posicionamento.
Barclay diz que críticas miram quem se aproveita dos programas
Diante da aparente contradição entre seu histórico nos programas sociais e as críticas feitas nas redes, Barclay afirmou que não condena todas as pessoas atendidas pelas políticas de transferência de renda. Segundo ela, os ataques são dirigidos a quem, em sua avaliação, recebe benefícios sem necessidade.
“Muitos não precisam e estão ali se aproveitando, não querem trabalhar para não perder o Bolsa Família”, declarou.
A candidata acrescentou que considera legítimo o atendimento a famílias em situação de vulnerabilidade e citou sua própria experiência.
“É isso que eu critico, não a quem recebe porque de fato precisa, porque assim como eu também precisei no momento que eu estava em uma situação de vulnerabilidade, muitas famílias também precisam dessa ajuda.”
Os dados publicados pelo UOL, portanto, mostram R$ 27.024,23 em benefícios federais vinculados ao nome de Barclay desde 2018, enquanto a candidata sustenta que deixou de receber os pagamentos depois de melhorar sua condição financeira. Em relação aos registros recentes, ela afirma que seu nome permaneceu ligado ao CadÚnico de parentes que efetivamente recebiam o Bolsa Família.
Fonte: Brasil 247










