“A partir daquele momento, meu pai me deu todo o apoio, toda a orientação técnica, os caminhos que eu teria que seguir, horas de voo, exames, como conduzir essa carreira. E minha mãe me deu o suporte emocional, sempre me incentivando a conquistar aquilo que eu queria. Minha mãe sempre priorizou isso: ‘Faça aquilo que você sonha, seja independente, conquiste tudo o que você deseja'”, lembra.
‘Desiste, isso não é coisa de mulher’
Karina afirma que o começo sempre é o mais difícil na aviação, ainda mais por não haver muitas mulheres pilotando.
“A aviação, nesse começo, já é difícil, até conseguir as horas de voo necessárias para entrar numa companhia aérea. Sendo mulher, ficou um pouco mais difícil. Tive casos de não me deixarem voar no próprio curso. Quando comecei a fazer o [curso de] piloto privado, alguns colegas de sala falavam: ‘Desiste, você nunca vai servir para isso, não é coisa de mulher’. Mas eu nunca dei bola. Eu tinha todo o suporte em casa e segui meu caminho.”
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Karina Buchalla Lutkus quando pilotou monomotor pela primeira vez foi destaque em jornal regional — Foto: Reprodução/Diário da Região
Conseguir um emprego foi ainda mais desafiador. Karina diz que chegou a trabalhar sem ganhar salário.
“Eu consegui voar em um aerotáxi em Rio Preto. Voava aeronaves de pequeno porte, como Navajo, Baron, Seneca. Depois houve uma mudança de dono, e um deles não estava muito feliz em ter uma mulher conduzindo os aviões dele. Acabei, então, indo para Cuiabá. Voei por um período lá. Eu tinha um primo piloto, que fez o contato com um amigo dele, também piloto em Cuiabá”, relata.
“Trabalhei em torno de três anos sem ganhar salário nenhum. Eu trabalhava de graça, pagava minhas despesas, mas ganhava horas de voo. Isso já me ajudou muito para conseguir as horas necessárias para ingressar numa companhia aérea.”
Em 2001, Karina participou de um processo para pilotos da Varig, com cerca de 3 mil candidatos. Ao chegar à etapa final, faltando pouco para ser admitida, o processo foi cancelado.
“Eu comecei o processo, fui passando em todas as etapas e, quando estava na última, no simulador, foi exatamente no dia 11 de setembro de 2001, quando ocorreu o atentado das Torres Gêmeas. Isso causou uma crise mundial na aviação, a Varig reviu os planos e cancelou a admissão. Então eu cheguei a passar em tudo, mas não entrei.”
No ano seguinte, passou em um processo da então TAM. “Estava feliz da vida, entrei direto no Airbus 320, aeronave supermoderna. Fiz todo o treinamento em simulador, estava com uniforme pronto. Um dia antes do meu primeiro voo, a TAM sofreu dois acidentes pequenos no mesmo dia e também teve que rever os planos. Eles interromperam o trabalho de cerca de 400 pilotos, e eu fui demitida um dia antes do meu primeiro voo.”
Dois anos depois, Karina retornou para a TAM e desta vez conseguiu voar. Ficou até 2019, quando pediu desligamento para ir para a Emirates.
“Entrei [na TAM] como copiloto de Fokker 100, e fiquei um ano e dois meses. Depois fui para o Airbus 320 e fiquei 10 meses. Em seguida, fui para o Airbus 330, fazendo voos internacionais para Europa e Estados Unidos. Fiquei quase quatro anos no 330. Com tempo total de seis anos de TAM, fui promovida a comandante da frota 320 — 319, 320 e 321”, relembra.
No comando da maior aeronave do mundo
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Karina Buchalla Lutkus se tornou a primeira mulher brasileira a comandar um Airbus A380 — Foto: Arquivo pessoal
Karina ressaltou que entrar na Emirates sempre foi seu sonho. Além dela, há outras mulheres de diversas nacionalidades que atuam na empresa como piloto.
“Eu sempre quis voar uma grande aeronave pelo mundo inteiro e em uma grande empresa aérea internacional. Adiei um pouco porque meu pai estava doente. Ele tinha mal de Parkinson. Depois que ele faleceu, fui em busca daquilo que eu sempre sonhei.”
Ela conta que quando a Emirates contrata o piloto como primeiro oficial, já há um planejamento para que o profissional se torne comandante.
“O processo para se tornar comandante começa no primeiro dia. A gente tem todo o treinamento inicial como copiloto. Depois, a cada três meses, passamos por sessões de simulador, uma sessão de handling [voo manual], outra de emergências gerais aplicadas aos diversos cenários das rotas da Emirates”, diz.
“A cada seis meses, os cenários mudam. Com isso, você cobre uma grande margem de adversidades que podem acontecer no voo. Quando atinge o número de horas, setores de voo, pousos e decolagens, vários fatores, você se torna elegível ao processo de upgrade.”
Ainda conforme Karina, o processo inclui:
- Avaliação psicotécnica;
- Duas provas teóricas de sistemas e procedimentos;
- Entrevista com o piloto-chefe;
- Entrevista com a equipe administrativa.
Após a aprovação, começa o curso de upgrade, que dura cerca de três meses, com várias sessões de simulador. Depois, começa a instrução em rota. No final, há o voo de liberação para o cheque e o cheque final (voo de familiarização em aeronave).
“No cheque final, já estou voando com um copiloto; o examinador fica no ‘jump seat’ [pequeno assento usado pela tripulação de cabine]. Quando finalizei o último voo, dei a mão para o checador e ele disse: ‘Parabéns, muito bem-feito’. Naquela hora, tive certeza de que tinha passado. Foi o momento mais emocionante de toda a minha carreira.”
“É incrível pilotar uma aeronave que leva esse número de passageiros por voos de 15, 16 horas, com todo o conforto e segurança. A redundância dos sistemas é incrível. É muita tecnologia. A Emirates tem uma frota incrível. É muito prazeroso, muito gratificante sentir que estou no comando de uma nave dessas. Só de tripulação, são 24 comissários. É demais.”
Rotina
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Karina Buchalla Lutkus se tornou a primeira mulher brasileira a comandar um Airbus A380 — Foto: Arquivo Pessoal
Depois de morar anos em São Paulo, atualmente Karina mora em Dubai com o marido, piloto aposentado, e os dois filhos pequenos.
“Eu e meu marido nos conhecemos quando eu era copiloto do Airbus 330 na TAM, e ele era meu passageiro. Depois nos casamos. No Brasil, era complicado os dois voando, por serem voos mais curtos, com muitos dias fora de casa. Aqui em Dubai, eu fico, em média, dois a três dias fora e cinco dias em casa. Estou sempre em casa.”
“Meu marido cuida das crianças quando eu estou voando, e cuidamos da casa juntos. Não temos funcionários. Fazemos questão de aproveitar nossos filhos. A qualidade de vida é excelente. Sou muito feliz com a empresa, com o avião, com a segurança do país e com tudo o que Dubai proporciona”, destaca.
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Airbus A380 da Emirates — Foto: Divulgação/Emirates
Ela conta que, em caso de voos longos, como Dubai–Brasil (15 horas), Nova Zelândia (16 horas) ou alguns destinos nos EUA, viajam quatro pilotos: dois comandantes e dois copilotos.
“Até a metade do voo, uma dupla opera e a outra descansa. Há uma área reservada para descanso, com cama e sistema de entretenimento. Na metade do voo, ocorre o revezamento. Antes do pouso, voltamos cerca de uma hora antes, para revisar os procedimentos. No dia seguinte, inverte”, diz.
“Minha escala é superbalanceada. A Emirates foca muito para que estejamos sempre aptos e descansados. Isso me permite fazer o que eu amo e, principalmente, curtir minha família aqui em Dubai, que é meu principal suporte.”
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Karina Buchalla Lutkus se tornou a primeira mulher brasileira a comandar um Airbus A380 — Foto: Reprodução/g1
Fonte: G1








