terça-feira, 8 de setembro de 2026

Alzheimer pode deixar sinais no cérebro mais de sete anos antes de placas aparecerem em exames, aponta estudo

Cientistas da Universidade de Oslo observaram sinais biológicos anos antes do acúmulo de proteínas beta-amiloide


O Alzheimer pode começar a deixar marcas no cérebro muito antes de os primeiros sinais da doença aparecerem. É o que sugere um estudo publicado na revista Nature Neuroscience, que identificou alterações cerebrais mais de sete anos antes de níveis elevados de placas da proteína beta-amiloide serem detectadas em exames de imagem.

O resultado da pesquisa conduzida por cientistas da Universidade de Oslo, na Noruega, sugere que alterações relacionadas ao desenvolvimento da doença podem surgir antes de alguns marcadores atualmente utilizados para identificar suas fases iniciais.

Liderados por James Michael Roe, os pesquisadores do Departamento de Psicologia da universidade utilizaram exames de ressonância magnética de indivíduos saudáveis realizados ao longo de quase 20 anos para observar mudanças na espessura do córtex cerebral e, posteriormente, compararam esses dados com exames PET (tomografia por emissão de pósitrons) capazes de identificar o acúmulo de placas beta-amiloide.

Dado o cruzamento dos exames, os estudiosos descobriram que as alterações na estrutura do cérebro foram observadas ao menos sete anos antes de um alto nível de amiloide, que é um dos principais sinais biológicos associados ao Alzheimer.

No entanto, a pesquisa não afirma que as alterações encontradas sejam, por si só, um diagnóstico precoce da doença. Os cientistas apenas demonstraram que existe uma associação temporal entre as mudanças na estrutura cerebral e o aparecimento posterior de níveis elevados de placas beta-amiloide detectáveis pelo exame PET.

Para o neurologista Arthur Jatobá, o resultado da pesquisa indica que alterações relacionadas ao Alzheimer podem ser identificadas em uma fase muito anterior aos sintomas mais conhecidos da doença.

— Isso significa que estamos diante de um achado bastante precoce. Essas alterações no cérebro podem aparecer anos antes de o paciente apresentar uma perda de memória perceptível. Ou seja, quando os primeiros sintomas começam a surgir, o processo da doença provavelmente já vem acontecendo há algum tempo — explica.

A presença da proteína beta-amiloide, contudo, não é sinônimo de doença. Segundo a psiquiatra Tânia Alves, a substância faz parte do funcionamento normal do sistema nervoso e pode ser encontrada no líquido cefalorraquidiano, fluido que protege o cérebro e a medula, de pessoas saudáveis.

Segundo a especialista, o problema aparece quando há alterações no processamento da proteína, favorecendo seu acúmulo e a formação das placas observadas nos exames.

— Quando a gente tem uma alteração dessa clivagem, ela começa a fazer formas que se juntam e se agregam, e aí ocorre, por exemplo, o que a gente chama de oligômero — afirma.

As mudanças observadas no estudo também precisam ser diferenciadas das alterações naturais provocadas pelo envelhecimento. Com o avanço da idade, é esperado que ocorram algumas modificações na estrutura cerebral e pequenas dificuldades de memória, sem que isso represente necessariamente um processo neurodegenerativo.

— É normal, por exemplo, às vezes esquecer coisas que não são importantes — diz Tânia.

Segundo ela, também pode acontecer de uma pessoa esquecer uma palavra ou um compromisso e conseguir recuperar a informação quando recebe alguma pista.

Para a psiquiatra, um dos sinais que merecem atenção é quando o esquecimento começa a atingir informações importantes e a pessoa não consegue recuperar a lembrança mesmo quando recebe estímulos ou pistas.

— No caso de Alzheimer, a pessoa não tem a gravação propriamente dita, então ela não consegue melhorar com a pista — afirma.

A descoberta ocorre em um momento de avanço na busca por métodos capazes de identificar o Alzheimer antes do aparecimento dos sintomas. Exames de sangue e técnicas de ressonância magnética estão evoluindo e podem, no futuro, ampliar a capacidade de detectar alterações relacionadas à doença em fases cada vez mais precoces.

Ainda assim, o período de sete anos identificado no estudo não deve ser interpretado como uma janela de diagnóstico antecipado.

— Não devemos interpretar os sete anos como se já fosse possível diagnosticar uma pessoa com Alzheimer sete anos antes dos sintomas. É apenas mais um dado que ajuda a entender a evolução da doença e, no futuro, pode contribuir para que o tratamento seja iniciado em uma fase mais precoce — afirma Jatobá.

*Aluno do Curso Jornalismo do Futuro – O GLOBO

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