O protagonismo foi inteiramente feminino no gramado da Escola Municipal Juan Antonio Samaranch, em Santa Teresa, na região central do Rio de Janeiro. Em um quadrangular disputado exclusivamente por garotas — com os meninos restritos à torcida na arquibancada —, teve início o projeto Pioneiras nas Escolas, programa que promove o encontro entre lendas do passado dos gramados e estudantes da rede municipal carioca.
Memória e superação histórica
Antes de a bola rolar no minitorneio, mais de uma centena de alunas lotou as dependências do auditório para ouvir relatos de Marisa Pires (Caju), Maria Lúcia Lima (Fia) e Marilza Martins (Pelezinha). As atletas, referências nas primeiras décadas da equipe nacional, dividiram memórias de conquistas e rememoraram os desafios enfrentados em uma época em que o futebol feminino dava seus passos inaugurais após décadas de clandestinidade.
No Brasil, a prática esportiva por mulheres sofreu proibição formal entre 1941 e 1979, amparada pelo Decreto-Lei 3.199, que vetava modalidades tidas como incompatíveis com as condições femininas. A regulamentação só ocorreu de fato em 1983. O impacto dessa barreira geracional ainda ecoa entre as mais jovens: Por que não podiam?, questionou, surpresa, a estudante Nicoly Melo, de 12 anos.
A primeira seleção feminina disputou uma competição em caráter experimental em 1988, na China, país que sediou também o primeiro Mundial oficial da categoria, em 1991. A estreia nos Jogos Olímpicos veio logo depois, na edição de Atlanta-1996.
Resistência ao machismo dentro e fora de campo
Aos 62 anos, Fia relembrou como a determinação técnica foi essencial para encarar o ambiente hostil de sua época. Tricampeã continental e participante de Copas do Mundo e Olimpíadas durante cinco anos vestindo a camisa verde e amarela, a ex-atleta destacou a própria postura diante dos obstáculos: Sempre joguei com menino. Tinha talento. Não queria saber de machismo.
A ex-zagueira Caju, de 60 anos, construiu um histórico expressivo de 1988 a 1999, acumulando 34 triunfos em 43 partidas oficiais. Questionada pelas estudantes sobre as maiores agressões verbais ouvidas na carreira, ela relatou: Vários torcedores diziam que mulher não servia para jogar futebol. As ofensas, contudo, funcionaram como combustível: Aquelas palavras mexiam com nosso ego, e a gente queria, mais e mais, mostrar que mulher sabe jogar futebol, pontuou a ex-jogadora, que hoje atua como árbitra.
Educação aliada à carreira esportiva
A coordenação do projeto está sob a liderança de Duda Luizelli, ex-jogadora com passagens pela seleção, Internacional de Porto Alegre e equipes italianas como Milan e Verona. A gestora reforça a relevância de associar o treino à formação acadêmica.
O estudo é muito importante porque, mesmo quem for ser atleta, jogadora de futebol, de vôlei, de basquete, terá uma carreira muito curta. Com 38, 39 anos, acabou a nossa carreira e nós temos que dar uma continuidade, alertou a bicampeã sul-americana.
Realizado em colaboração com a Secretaria Municipal de Educação (SME), o evento ocorreu no primeiro Ginásio Experimental Olímpico (GEO) da cidade. Criada como parte do legado dos Jogos Rio 2016, a unidade conta com 600 estudantes em período integral e estrutura com treinadores dedicados a 19 modalidades. A rede carioca soma atualmente 12 escolas nesse formato vocacionado.
Segundo a coordenadora de Projetos Integradores da SME, Caroline Guedes, as ações já miram a Copa do Mundo Feminina de 2027, da qual o Rio de Janeiro será subsede: É muito importante que a gente já esteja se preparando para esse momento e, mais do que isso, se preparando dentro do nosso primeiro ginásio olímpico, que é muito importante para nossa rede.
Para Letícia Pereira, de 15 anos, receber as pioneiras foi um privilégio. Aluna do 9º ano, ela avalia o contato direto como meio caminho andado para as alunas por mostrar que o esporte também dá futuro, sim, e já faz planos para apoiar o futebol feminino nos estádios: Meu pai me leva lá, eu fico lá torcendo.










