Gol suspende vendas até segunda: entenda como ‘efeito dominó’ do ciclone bagunçou a aviação e paralisou Congonhas

O efeito dominó provocado pelo ciclone que atingiu São Paulo na última quarta-feira (10) continua gerando transtornos massivos no Aeroporto de Congonhas. Mesmo com a infraestrutura operacional restabelecida, o reflexo dos ventos, que ultrapassaram os 90 km/h, ainda desorganiza a malha aérea nacional. Segundo balanço divulgado pela Aena, concessionária que administra o terminal, até às 18h30 desta quinta-feira (11), 66 chegadas e 51 partidas foram canceladas, totalizando 117 voos afetados apenas hoje.

O colapso na oferta de assentos para reacomodação forçou medidas drásticas de contingência. Segundo apurou O GLOBO, a Gol suspendeu temporariamente a venda de novas passagens para todo o fim de semana. Quem busca bilhetes pela companhia neste momento só encontra disponibilidade para voar a partir de segunda-feira. A trava nas vendas visa a priorizar o embarque dos passageiros que já estão retidos nos aeroportos e não conseguem vagas nos voos lotados.

A concessionária Aena também alertou que a situação exige cautela e orienta que passageiros verifiquem o status dos voos antes de se deslocarem ao aeroporto. Nos saguões, no entanto, a realidade é de filas extensas e incerteza, onde o ajuste gradual da malha aérea colide com a rotina de milhares de brasileiros.

Nos bastidores, fontes do setor aéreo explicam que a retomada total das operações não pode ser afirmada com precisão e esbarra em um complexo “efeito dominó” logístico. Como as aeronaves operam em regime de rotação contínua, um avião retido pelo ciclone em Congonhas acaba gerando cancelamentos em cascata por todo o país, mesmo em cidades onde o clima está estável.

Na prática, um passageiro aguardando um voo do Galeão (RJ) para Manaus pode ter sua viagem cancelada simplesmente porque a aeronave que cumpriria essa etapa ficou presa em São Paulo e não chegou ao Rio de Janeiro.

Além do desposicionamento das aeronaves, a crise é agravada pelas estritas regulamentações de segurança das tripulações. Pilotos e comissários seguem limites rígidos de jornada de trabalho e, com as horas perdidas em espera dentro dos aviões ou nas salas de embarque, muitas equipes acabam atingindo o tempo máximo de serviço. Isso impede que o voo decole mesmo com o avião disponível, obrigando as companhias a acionarem tripulações reservas de última hora e gerando novos cancelamentos em cascata.

O impacto final recai sobre a logística de conexões, criando um gargalo nos balcões de atendimento. O atraso de um único voo chegando a São Paulo pode fazer com que dezenas de passageiros percam suas escalas para outros estados, gerando uma demanda imediata por reacomodação. O problema é que, em período de alta temporada, os voos seguintes já partem praticamente lotados, deixando pouca ou nenhuma margem para encaixar esses viajantes, que acabam retidos nos aeroportos por dias à espera de uma vaga.

O cenário pode se tornar ainda mais crítico nesta sexta-feira, dia tradicionalmente com alto volume de passageiros e que marca o início da alta temporada, o que pode saturar ainda mais os voos disponíveis para reacomodação.

Diante da escassez de assentos e do desposicionamento da frota, as companhias passaram a recorrer a medidas alternativas para escoar a demanda, oferecendo viagens de ônibus e transporte por aplicativo em trechos onde o deslocamento terrestre é viável.

Passageiros vivem saga entre aeroportos

Entre os passageiros impactados está o desenvolvedor Matheus Ribamar, que fazia uma escala em São Paulo vindo de Curitiba com destino a Brasília. O mau tempo gerou um atraso em cadeia em sua viagem: o voo que deveria partir da capital paranaense ao meio-dia só decolou três horas depois, fazendo com que ele pousasse em solo paulista às 16h e perdesse a conexão original para o Distrito Federal.

— Vai atrasando, né? O meu outro voo que saiu daqui atrasou, mas atrasou menos que o primeiro, então acabei perdendo. Conversamos com o pessoal da companhia aérea e, no meu caso, está um pouco mais tranquilo. Conseguiram um assento em outro voo para às 19h40, com previsão de chegada às 21h30. Então, o atraso foi de cinco horas no trecho total.

Quem também enfrenta uma corrida contra o tempo, mas com um drama familiar envolvido, é Mayara Givera Rubi. Viajando de Salvador para Porto Alegre, ela teve o voo cancelado na conexão em Congonhas e aguarda na fila de remarcação com uma preocupação urgente: a previsão preliminar dada pela companhia aérea aponta uma realocação apenas para a tarde de domingo, o que a impediria de participar de uma despedida importante.

— Disseram que a previsão para o próximo voo seria só domingo, às 15h. Espero não ter que ficar aqui até lá; estou tentando ver outras soluções, ou até pegar um ônibus. Minha irmã está se mudando de país e viaja na manhã de domingo, então preciso chegar a Porto Alegre antes disso para conseguir me despedir dela.

A situação é ainda mais dramática para o pedreiro Mário Araújo, que vive uma verdadeira peregrinação há mais de 24 horas na tentativa de chegar a Brasília a trabalho. Vindo originalmente do aeroporto de Guarulhos, onde chegou às 13h do dia anterior, Mário enfrentou três cancelamentos consecutivos e foi orientado a se deslocar para Congonhas — pagando o transporte do próprio bolso — onde terá que aguardar até a manhã seguinte para tentar embarcar.

— Passei a noite todinha de pé lá na fila para remarcar a passagem. Dormi no aeroporto “na cama do jumento”, lá no chão. Quando foi embarcar de novo, cancelou outra vez e me mandaram para cá. O voo está marcado para as seis e meia da manhã, então já fiquei uma noite lá em Guarulhos e vou ficar outra aqui. Se cancelar de novo, vou ter que desistir. Que situação feia, viu?

O pedreiro Mário Araújo — Foto: Edilson Dantas / O Globo

O pedreiro Mário Araújo — Foto: Edilson Dantas / O Globo

O que dizem as companhias aéreas

Diante do colapso na malha, as companhias aéreas anunciaram medidas de flexibilização para tentar mitigar os danos aos passageiros:

  • A empresa informa que cancelamentos e reprogramações afetam voos desde quarta-feira devido às condições climáticas em Congonhas e Guarulhos. Clientes afetados podem remarcar sem custos por até um ano ou solicitar reembolso via site e app.
  • Clientes não residentes em São Paulo que precisarem de hotel podem fazer a reserva por conta própria e guardar os comprovantes para solicitar reembolso posteriormente via WhatsApp (+56 9 68250850).
  • Para descongestionar os aeroportos, quem tem voo marcado entre 10 e 12 de dezembro (mesmo que não cancelado) pode alterar a data sem custo para viajar nos próximos 15 dias.

  • A Azul ressalta que os cancelamentos ocorrem por motivos alheios à vontade da companhia, afetando também o sequenciamento de aeronaves em outras regiões.
  • Clientes com passagens para os dias 11 e 12 de dezembro podem alterar a viagem gratuitamente até o dia 18 de dezembro ou manter o crédito integral válido por um ano.

  • A Gol informa que as operações seguem regulares nesta quinta-feira, mas alerta para novos atrasos residuais devido à contingência do dia anterior.
  • Clientes impactados pelos atrasos e cancelamentos de quarta (10) podem alterar o voo sem custos, mantendo origem e destino, através do chat no site ou pelo telefone 0300 115 2121.

Fonte: Globo.com

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