
Você dá detalhes do que passou no livro e no doc, fala de sintomas físicos como o formigamento das mãos, e da constatação de que ia morrer. Não teve gatilhos de volta para a crise?
Foi complicado, porque o gatilho está ali. Só que aconteceu algo inverso, quanto mais eu falava disso, mais eu me libertava. No começo não sabia se queria fazer, por conta do gatilho. Só que me ajudou a melhorar, não a potencializar. Havia ainda a possibilidade de chegar no outro, de deixar algo para a sociedade, o livro continua.
Teve medo de ficar marcado por falar do seu diagnóstico?
Acho que não. O tempo irá pulverizar essas coisas. Ficar marcado por deixar algo bom para a sociedade não me parece um problema. Imagina ficar marcado por alguém que tentou fazer o bem, que tentou chegar nos outros de uma outra maneira, não só com os personagens, mas mostrando que também sou vulnerável. Isso é bom, me deixa feliz.
Os medicamentos psiquiátricos ainda são tabu, você já contou que se deu alta deles uma vez.
Parei mesmo. Falei: “Pô, tô bem, não tenho mais crise, parei.” Parei por seis meses, no sétimo mês eu tive uma crise. Liguei para a pessoa que cuida de mim nesse sentido e ele me disse que eu não poderia me dar alta, que o medicamento estava lá para me ajudar. Voltei a tomar remédios todos os dias, no trabalho sempre foi uma coisa tranquila. Nunca tive nada trabalhando, mas, se tivesse, as pessoas iam me acolher. Hoje as empresas acolhem mais. Pior é quem não fala e guarda para si, e explode de outra maneira. É uma explosão. Eu, quando falo de saúde mental, me liberto.
Segue tomando remédio?
Sigo, com acompanhamento. Uma vez eu tive uma crise em São Paulo, fui ao hospital, o Sírio-Libanês. Chamaram minha senha. Aí (senti que) melhorei e fui embora. Só de chegar ao hospital eu melhorei.
A alta é outro tabu…
Alta é um tabu, sim. Às vezes, na minha peça “Terapia” (monólogo com datas próximas em Volta Redonda, Vitória e Recife), pergunto quem fez terapia e quem fez e se deu alta. Alguns levantam a mão. É meio cool fazer terapia há muitos anos, assim como há o tabu em tomar remédio.
Teve medo de que essas crises, de alguma forma, também pudessem chegar aos seus filhos?
Felipe, um dos gêmeos, de 13 anos, tem um pouco de medo de avião. Minha filha, Catarina, 21 anos, também. O outro gêmeo, Guilherme, não tem. Meu pai acha que está no meu DNA essa coisa (da crise de pânico), porque minha mãe fazia coisas inacreditáveis em aviões. Uma vez ela foi à cabine do piloto e ela falava para ele: “Por que você não vai no caminho do meio? Tem nuvem para direita, para a esquerda, vai no meio!” Meu pai foi lá tirar ela. Outra vez ela fez cinco senhoras desembarcarem do voo ao dizer:“Vai cair o avião!” E, antes de sair, ela me levou também.
Qual o seu check-list pra vida?
Tenho táticas. O Tiago Garcia, que faz hipnose, me deu um áudio que eu escuto antes de embarcar em avião, o que me ajuda a me acalmar. Viagem longa não existe. Para ir a Paris, eu faço Rio, Lisboa, vejo dois filmes, me acalmo, depois faço mais um voo de três horas. Sou malandro. Não trabalho mais como eu trabalhava, tento não querer mudar minha essência. Me adéquo, tento melhorar algumas coisas, mas mudar em prol do outro para agradar, não faço mais. Tento cada vez mais ser um cara bom, legal. Não recuso mais autógrafo e foto, já recusei muito.
Dá remorso?
Ah, a pessoa sai falando mal de você: “É um merda que não quis fazer uma foto comigo!” As pessoas me falam: “Minha vó te ama”, aí nessas horas penso que envelheci mesmo. Então, pergunto de volta: “Você não me ama?” Eles respondem que amam porque viram “Beleza fatal” (novela da HBOMax, em que ele fez o insólito Dr. Peitão).
O personagem Crô ajudou você a repensar sua masculinidade?
O Crô me aproximou muito da comunidade LGBT. Fui às boates, às passeatas gays em São Paulo. Foi muito revelador, vim de uma família machista. Nunca imaginei que fosse fazer sucesso, acho que nem o Aguinaldo (Silva, autor da novela “Fina estampa”, em que o personagem apareceu pela primeira vez). Crô virou figurinha, cor de esmalte, teve as pessoas no carnaval. O sucesso tem uma violência muito grande, mas no bom sentido, ele te tira do lugar e te joga em outro. É preciso estar preparado para isso.
Teve crise pós-Crô?
Tive crise pós-Crô. É como parar de comer, aquilo vira uma abstinência. Mas sou grato, fiz muitas coisas depois. E ele voltou agora em “Três Graças” e foi um sucesso. Mas agora ela está cansada, deixa ela (o Crô) descansar.
Vai se posicionar nas eleições deste ano? Você sempre declarou seus lados…
Não vou. Eu tenho uma questão séria de saúde mental, eu olho muito para a internet. Não quero isso para mim, isso tem um custo. Não preciso tê-lo novamente, mas estou sempre do lado do bem.
Fonte: Globo.com










