A pausa pode chegar porque o paciente atingiu uma meta de peso adequada, porque a tolerância piorou a ponto de comprometer a adesão —situação em que um passo atrás na dose ajuda a manter o tratamento— ou por uma decisão de bom senso, como no idoso cuja perda de peso já alcançou um patamar razoável e para quem emagrecer mais deixa de ser desejável.
“São medicamentos muito importantes, mas, como tudo na medicina, exigem cuidado e individualização de acordo com a evolução e o contexto de cada paciente”, pondera.
O sucesso não se mede só pela balança
Se há uma ideia que percorre todo o consenso, é a de que perder peso não significa, necessariamente, ganhar saúde. Os especialistas ressaltam que parte do peso eliminado durante o tratamento corresponde à perda de massa muscular.
Quando isso ocorre em excesso, crescem os riscos de fraqueza, limitação para as tarefas do dia a dia e sarcopenia —a redução da força e da quantidade de músculos. O documento reforça que os benefícios desses remédios vão muito além do ponteiro da balança, do controle da glicose à redução do risco cardiovascular, passando pela gordura no fígado e pela apneia do sono.
É esse o ponto que Valente faz questão de sublinhar.
“Pouco adianta reduzir o número na balança à custa de uma piora nutricional, de cansaço, de queda de cabelo intensa ou da incapacidade de se exercitar e viver bem —e, nos mais vulneráveis, do aumento do risco de quedas e fraturas”, afirma.
Daí a proposta de deslocar o foco: mais do que contar quilos, o médico deve acompanhar se o paciente preserva músculos, capacidade física e estado nutricional.
Proteína e musculação deixam de ser coadjuvantes
Para conter a perda de massa magra, o consenso recomenda uma ingestão diária de cerca de 1 a 1,5 grama de proteína por quilo de peso ajustado —com um mínimo de 60 gramas por dia, distribuídas ao longo das refeições.
Quando a alimentação não dá conta dessa meta, suplementos podem entrar em cena, sempre após avaliação individual. Como o apetite diminui, o consumo de proteína tende a cair justamente quando ela é mais necessária, o que aumenta o risco de baixa massa muscular.
A novidade é o papel reservado ao exercício: a prática regular de atividades de força, como a musculação, aparece pela primeira vez como peça central da estratégia para quem usa agonistas de GLP-1 e medicamentos semelhantes.
Lamounier acrescenta uma ressalva que considera decisiva, sobretudo entre os mais velhos: proteína e treino de força importam para todos, mas especialmente quanto mais avança a idade —e, na hora de avaliar o resultado, o que conta não é o tamanho do músculo, e sim o que ele consegue fazer.
“No que diz respeito ao músculo, a funcionalidade é mais importante do que a quantidade”, afirma.
Isso significa, por exemplo, observar a capacidade de levantar da cadeira sem o apoio das mãos ou a força de preensão palmar, medida com o dinamômetro —o hand grip—, que ele descreve como um marcador de risco de mortalidade em idosos.
Comer menos não significa comer melhor
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— Foto: Pexels
Comer menos, porém, não significa comer melhor. O consenso alerta que a redução do apetite pode comprometer o consumo de vitaminas, minerais e fibras, e insiste que a alimentação priorize alimentos densos em nutrientes —frutas, verduras, legumes e grãos integrais— em vez de apenas cortar calorias.
Emagrecer depressa demais cobra um preço à parte, adverte Valente: um ritmo excessivo pode levar à anemia e favorecer a formação de cálculos na vesícula, além de elevar o risco de pancreatite —ainda que os grandes ensaios clínicos não mostrem aumento significativo desse risco frente ao placebo.
Ainda assim, o documento não defende que todos os pacientes sejam acompanhados por nutricionistas ou submetidos a uma extensa bateria de exames. A proposta é um modelo escalonado, que reserva o acompanhamento mais próximo aos casos vulneráveis —idosos, pessoas com histórico de cirurgia bariátrica ou de transtorno alimentar, quem emagrece rápido demais e quem já teve desnutrição.
Para esses, explica o médico, fazem sentido exames como hemograma, além da avaliação de ferro, zinco, vitaminas do complexo B (incluindo B12 e tiamina), ácido fólico e vitamina D. Uma ingestão abaixo de 1.200 calorias diárias, acrescenta, já é sinal de necessidade de uma avaliação mais cuidadosa.
A relação com a comida também muda
Além das questões metabólicas, o documento dedica um capítulo inteiro aos efeitos psicológicos desses medicamentos —e, pela primeira vez, um documento internacional incorpora o conceito de food noise.
“É o pensamento persistente e intrusivo em relação à comida, da pessoa que pensa o tempo todo em comer; os medicamentos reduzem esse ruído ao atuar nas áreas de recompensa do cérebro”, descreve Valente.
O efeito, relatam os autores, ajuda o paciente a comer em resposta à fome física, e não a estímulos emocionais ou sociais.
Essa mudança, porém, tem um reverso. Muitos pacientes têm dificuldade de reconstruir hábitos e estratégias emocionais quando a comida deixa de ocupar o lugar central que ocupava.
“Muitos usam a comida como muleta emocional ou ritual social; ao perder esse apoio, podem viver uma crise de identidade e angústia”, pondera o endocrinologista.
Quando esse vínculo emocional com a comida se rompe, defende o endocrinologista, o acompanhamento psicológico deve estar disponível —sobretudo para quem tem histórico de transtornos alimentares—, ajudando o paciente a construir formas de lazer e conexão social que não passem pelo prato.
Lamounier chama atenção para o outro lado dessa mesma vigilância. Se o consenso destaca o alívio psicológico que costuma acompanhar o tratamento, ele lembra que é preciso verificar, caso a caso, se o remédio não está tendo o efeito inverso sobre sintomas de ansiedade e depressão.
“Não adianta perder peso e o sofrimento mental aumentar”, resume —uma piora que, ressalva, não é o que os estudos têm mostrado, mas que justifica uma avaliação individualizada ao longo de todo o tratamento.
O desafio do reganho de peso
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— Foto: Adobe Stock
Entre as questões que o tratamento ainda precisa equacionar está o que acontece depois que o remédio é interrompido.
“O reganho de peso não é incomum, porque o corpo interpreta a perda como uma ameaça, reduz o gasto energético e aumenta o apetite”, explica Valente.
Sem o medicamento a neutralizar esse mecanismo de adaptação, e sem uma orientação de retaguarda, a tendência é que os quilos voltem.
O endocrinologista aponta, no entanto, um conjunto de estratégias para reduzir esse risco:
- manter o exercício físico para sustentar o gasto energético,
- ajustar a alimentação com proteína adequada, carboidratos complexos e gorduras insatuQuando esse vínculo emocional com a comida se rompe, defende o endocrinologista, o acompanhamento psicológico deve estar disponível — sobretudo para quem tem histórico de transtornos alimentares —, ajudando o paciente a construir formas de lazer e conexão social que não passem pelo prato.radas (evitando as saturadas e os ultraprocessados),
- adotar novos hábitos comportamentais e preservar a regularidade das consultas, com o médico ou com uma equipe multidisciplinar.
Em alguns casos, acrescenta, discute-se a manutenção do tratamento farmacológico em dose menor ou a troca por uma medicação mais acessível, pensando no longo prazo.
Fonte: G1










