
Em dezembro de 2005, apenas 28% dos eleitores classificavam o governo Lula como ótimo ou bom, segundo o Datafolha, uma queda acentuada em relação aos 45% registrados um ano antes. O principal fator de desgaste era o escândalo do mensalão, que dominava o noticiário e era explorado de forma sistemática pela oposição tucana na pré-campanha eleitoral.
Já em 2025, a aprovação do presidente subiu de 24% em fevereiro para 32% na pesquisa mais recente do Datafolha — o índice se aproximou ao registrado no fim de 2024 antes da queda de popularidade com a crise do Pix. Se a inflação dos alimentos era o principal fator de desgaste, afetando sobretudo os eleitores de baixa renda, ao longo do ano, uma safra recorde de grãos e a manutenção dos juros em patamar elevado contribuíram para desacelerar os preços. A inflação acumulada em 12 meses no grupo alimentos e bebidas caiu de cerca de 7% para 3,88%, segundo o IPCA.
A avaliação de especialistas é que, apesar do patamar de avaliação melhor do que há 20 anos e das notícias potencialmente positivas, como a perspectiva de queda dos juros a partir de fevereiro, o contexto econômico atual é menos favorável do que o de 2006.
— Naquele período, a economia estava em aceleração. Agora, a tendência é de desaceleração do crescimento, em parte provocada pelos juros elevados. Ainda assim, os três fatores que mais influenciam a popularidade (crescimento da economia, níveis de desemprego e de inflação) iniciam 2026 em níveis positivos — diz o cientista político Antônio Lavareda, do Ipespe.
Por outro lado, diferentemente de 2006, o ambiente político é mais adverso para a oposição do que para o governo. O tarifaço imposto pelo presidente Donald Trump às exportações brasileiras e o lobby feito por Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos EUA em prol de sanções ao Brasil e às autoridades brasileiras pesaram a favor da popularidade de Lula.
— A oposição é quem acumula escândalos, tem Bolsonaro preso por envolvimento na trama golpista e enfrenta dificuldades de articulação, sem um candidato definido ainda. O tarifaço de Donald Trump acabou favorecendo Lula, reforçando uma retórica nacionalista e de defesa da soberania — lembra Aldo Fornazieri, diretor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
Ainda assim, quem acompanha de perto o cenário eleitoral cita diferenças estruturais importantes entre os períodos. Para Mauro Paulino, ex-diretor do Instituto Datafolha, é preciso levar em consideração que, em 2006, as redes sociais não tinham o peso que têm hoje. Para ele, temas como segurança pública e insegurança econômica ganharam centralidade na definição do voto, especialmente entre jovens e mulheres, e podem pesar contra o governo Lula.
— O modo de decidir o voto mudou radicalmente, o que compromete comparações diretas com eleições anteriores — diz. — Há um deslocamento dos jovens para posições mais ao centro e à centro-direita, e uma preocupação crescente das mulheres, sobretudo das periferias, com a violência e a inflação dos alimentos.
A segurança pública, em particular, tende a ocupar espaço central no debate eleitoral. Pesquisa Quaest de novembro aponta que 38% dos eleitores já consideram a violência o principal problema do país.
O tema é um dos pontos sensíveis para o governo petista, que não conseguiu aprovar em 2025 suas principais propostas para a área — a Proposta de Emenda à Constituição da Segurança Pública e o projeto Antifacção. Ao mesmo tempo, o assunto deverá ser pautado principalmente pelos candidatos de oposição a Lula.
O professor de ciência política Moisés Marques, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, afirma que o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), “pôs o bode na sala” com a operação contra o Comando Vermelho que deixou 121 mortos e mostrou como o assunto tem potencial para desgastar a imagem de Lula. Pesquisas mostraram que a maioria da população apoiou a ofensiva e se colocou contra a avaliação de que foi “matança”, feita pelo presidente.
— Vejo três fatores como variáveis que dificultam a reeleição: a fadiga, a insegurança pública e a pauta de valores morais. Lula vai precisar mostrar qual será sua novidade para o quarto mandato, sua capacidade de renovação — diz Marques.
A avaliação entre cientistas políticos é que Lula falhou ao tentar conectar seu governo com novas demandas da sociedade. Embora tenha conseguido avançar com pautas econômicas, como a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, eles citam o empreendedor informal, que foi menos impactado pelos programas do governo. Lula demorou a tentar se posicionar entre esse público e poderá colher consequências negativas disso nas urnas, avalia Creomar de Souza, CEO da Consultoria Política Dharma e professor da Fundação Dom Cabral.
— Cada incumbente em uma democracia eleitoral plena terá que enfrentar o fato de que, à medida que não consegue entregar tudo o que promete e que as pessoas não encontram solução para seus problemas, elas irão punir com o voto. É uma eleição na qual quem errar menos e criar menos confusão para si leva. Será por eliminação.
Motoristas e entregadores de aplicativos integram um grupo político que não é de direita nem de esquerda, na visão de Maurício Moura, fundador e presidente do Instituto Ideia e professor da Universidade George Washington. Moura aponta que é um segmento da população com o qual o PT não tem habilidade para lidar e que integra uma margem apertada da população que vai decidir a eleição.
— Estamos na era das oposições e da alternância de poder; os presidentes são eleitos com metade do país os odiando. A margem de disputa será de 3%, que vão decidir a eleição. Metade do país não aprova e a outra metade aprova. Para onde forem os 3%, decide-se a eleição. É uma eleição de oposição e com presidente de popularidade baixa — avalia.
Pontos de preocupação para Lula
- Agenda da segurança: Enquanto o tema é citado por 38% dos eleitores como o principal problema do país, segundo a pesquisa Genial/Quaest — maior patamar entre as áreas —, o governo Lula não conseguiu aprovar em 2025 suas principais propostas para a segurança pública.
- Insegurança econômica: Embora índices de crescimento da economia, níveis de desemprego e de inflação comecem o ano com resultados positivos, a tendência é de desaceleração do crescimento, em parte provocada pelos juros elevados, quadro bem diferente do de 2006.
- Empreendedores informais: Menos impactado pelos programas federais, o empreendedor informal é um público com o qual o governo tem dificuldades para dialogar e oferecer políticas públicas. São exemplos dessa fatia os motoristas e entregadores de aplicativos.
Fonte: Globo.com










